Quinta-feira, Novembro 17, 2005

Mais vale um consumidor mediocre que um bom cidadão


Ser bom consumidor é o inverso de ser bom cidadão. Pode parecer estúpido, mas é a realidade. Desde a época em que comecei a ganhar consciência social que me pergunto por que razão não existe um verbo para o acto de ser cidadão.
Cidadão é, segundo diversos dicionários de Língua Portuguesa, um habitante de um estado livre, com direitos civis e políticos. Um consumidor é aquele que consome, que dá consumo a, que compra para gastar em uso próprio.
Na definição de cidadão nunca é referido que “é aquele que exerce a cidadania”. Para os linguistas e para os legisladores o cidadão é um ser passivo, anónimo, com direitos, é certo, mas sem capacidade de intervenção. Por isso mesmo não existe o verbo “cidadanizar”. Pelo contrário, o consumidor é um ente activo, com vontade própria. É algo que tem capacidade de intervir de mudar.
Desde crianças que somos ensinados a ser bons consumidores. Que nos ensinam a pagar as continhas todas. Afinal, é feio ficar a dever, mesmo que seja a uma entidade que explora trabalhadores ao não lhe pagar horas extraordinárias. Somos educados a criar património próprio. Somos ensinados a trabalhar para termos dinheiro, claro está, para consumir, e mais exemplos podiam ser dados.
Mas será que aprendemos a ser cidadãos? É óbvio que não, salvo raras excepções. Somos ensinados a dar algo de nós à comunidade? Aprendemos a ter um comportamento correcto para com os outros ou para com a comunidade? Somos educados a intervir? Não! Somos ensinados a baixar a cabeça, a colocar o “rabinho” entre as pernas e a calar.
É tudo uma grande merda. Porque quem quer resistir acaba por ser devorado pelos predadores desta grande selva. Ser bom cidadão prejudica a economia, faz abrandar o consumo interno, faz com que o mundo se mova mais devagar. E isso não pode acontecer, certo? Antes ser um cidadão de merda que um consumidor falido.

Sábado, Outubro 29, 2005

Viagem à cidade dos ventos - II capítulo

II - A encruzilhada


O homem que reconquistou o governo de Grote Marine para os Vermelhos, foi apanhado de surpresa. Venceu… mas… e agora? O que fazer? Ninguém o avisara desta possibilidade. Meses antes, quando foi convidado para ser candidato à chefia da governação do pequeno país, nunca pensou que pudesse ser eleito. Uma coisa é fazer campanha, dizer mal dos outros, prometer, outra é governar, pensava o angustiado Bastus.
Na sua casa junto ao mar, o novo governante do país dos ventos ponderava sobre o futuro da sua cidade-estado. Quem o acompanhara na campanha foi igualmente apanhado de surpresa. Há meses, quando a direcção dos Vermelhos reuniu para decidir os candidatos, nunca esteve em cima da mesa um eventual a conquista do poder, mas sim perder por poucos votos. Bastus lembra-se perfeitamente do discurso da direcção do partido. “Os Rosas vão apresentar Arrogus de novo. Não nos podemos dar ao luxo de apresentar um candidato jovem, com pouco peso político e pouco conhecido. Fazer isso é o descalabro total. Temos que voltar a apostar em alguém que possa fazer frente a Arrogus”. As palavras de Nauticus, um dos mais influentes directores dos Vermelhos, ecoavam constantemente na sua cabeça. Apesar de contestado por alguns jovens, Bastus avançou. Sabia que a vitória era difícil de atingir. Graças a esse argumento conseguiu convencer alguns dos seus companheiros a entrarem na lista de candidatura. Os nomes escolhidos não foram a pensar num futuro governo do país. A estratégia adoptada baseou-se na constituição de um grupo que pudesse captar o maior número possível de votos. Em caso de vitória, logo se via.
O destino acabou por pregar uma partida a Bastus. Tinha em mãos o governo de Grote Marine, mas faltavam-lhe quadros especializados para o acompanharem. Os Vermelhos eleitos tinham qualidade, mas não eram suficientes para governar. Era necessário assessores, técnicos eficientes e de confiança política. Eles existiam, mas quase todos tinham emigrado para outras cidades-estado depois da grande derrota de há 20 anos. Bastus estava angustiado. A sua angústia crescia quando outra questão lampejava no seu cérebro. Os Laranjas! Estava prisioneiro dos Laranjas para conseguir governar. Encontrava-se numa encruzilhada. E agora? O que fazer, pensava enquanto os seus olhos seguiam o enrolar das ondas.

Quinta-feira, Outubro 27, 2005

Viagem à cidade dos ventos - I capítulo


I - A luta pelo poder


A política sempre condicionou o dia-a-dia de Grote Marine, uma cidade-estado implantada no litoral atlântico, no meio de uma extensa floresta. A vida dos cidadãos, embora pacata, sempre foi fortemente influenciada pelas duas forças políticas que disputavam o governo do pequeno país.
Grote Marine assentava a sua economia em indústrias que dependiam dos humores dos mercados internacionais, facto que criava uma constante oscilação entre a prosperidade e o limiar da miséria.
Desde a sua independência, no início do século X, que os Rosas e os Vermelhos, as duas principais forças políticas, alternavam no poder. Os Rosas foram os primeiros a governar a cidade. Mas, rapidamente, o povo os substituiu pelos Vermelhos. Estes estiveram no poder durante 20 anos. Criaram raízes e ramificaram as suas influências a toda a sociedade. O trabalho foi tão bem feito, que era difícil admitir que o poder pudesse mudar em Grote Marine. Famílias inteiras dependiam da bondade dos Vermelhos. Os desempregados, desde que apoiantes da causa, eram recebidos de braços abertos para desempenharem funções na administração do pequeno país.
Enquanto isso, os Rosas trabalhavam na sombra. Chamavam a si os descontentes, os independentes e os inconformados, que não conseguiam compreender por que razão a sua terra continuava a consumir-se devido ao pensamento pequeno e à visão curta dos seus governantes. O trabalho foi bem feito. Ano após ano, escrutínio após escrutínio os ramos da árvore vermelha iam secando. Ao invés, as raízes rosas cresciam e as ramificações tornavam-se mais fortes.
O dia da mudança acabou por chegar. O milagre não foi operado por quem já estava no terreno. O couteiro-mor dos Rosas, um hábil político de palavra fácil de nome Abilís, que chegou a ser uma figura destacada dos Vermelhos, preparou bem a estratégia. Consciente do descontentamento que reinava e da desordem que se vivia nas hostes adversárias, Abilís, foi descobrir o messias de Grote Marine a uma cidade-estado distante, situada na longínqua Helvecia. O seu nome era Arrogus, um homem culto, de trato difícil, distante, mas amante da sua cidade.
Mais iluminado que o cidadão médio de Grote Marine, devido aos longos anos de contacto com uma sociedade mais desenvolvida social e culturalmente, Arrogus rapidamente convenceu os indecisos, os inconformados e os independentes. Criou-se uma vaga de mudança que varreu as frágeis defesas dos Vermelhos e terminou com a chegada ao poder dos Rosas, 20 anos depois.
A imagem de Grote Marine, conhecida essencialmente pelos constantes conflitos sociais, começava então a mudar. A cidade ganhou novas estruturas que agradaram aos cidadãos. Nos primeiros cinco anos de governo, os Rosas lançaram as sementes que começaram a colher nos últimos anos. Mudaram a face do centro da cidade. Melhoraram a educação e imagem internacional do pequeno país. Construíram novas acessibilidades. A população, agradada com a sua actuação, voltou a confiar nos Rosas e colocou-os no governo de Grote Marine por mais cinco anos. Tal como os Vermelhos, os Rosas cimentaram o seu poder. As raízes tornaram-se mais profundas e os ramos mais longos. Acolheram os membros do clã nos serviços da administração do pequeno país. Fecharam-se em si. O couteiro-mor, que havia tido uma actuação estratégica quase perfeita na primeira vitória, perdeu o discernimento. A governação foi autista e feita de forma arrogante. Mostraram obra, sem dúvida, mas distanciaram-se do povo.
O aviso foi dado. A representação dos Rosas no parlamento diminuiu. Os Laranjas, uma força política com pouca representação na sociedade de Grote Marine, voltaram a ter poder de decisão. Os Vermelhos cresceram e os Rosas desceram na popularidade, embora tenham mantido o poder. Mas Abilís, o couteiro-mor dos Rosas, não conseguiu gerir a insatisfação que reinava no seio do seu clã. E cinco anos e muitos erros depois, os ramos rosas começaram a secar e os Vermelhos voltaram ao poder. Petrosus, o jovem candidato que substituiu Arrogus, foi vencido pelo experiente Bastus, numas eleições muito disputadas.

Quinta-feira, Outubro 20, 2005

Farto!!!


Estou farto. Farto de idiotices transformadas em discursos políticos. Farto de pessoas a defender a integração em Espanha, como se isso fosse resolver os nossos problemas estruturais e económicos. Em resumo, estou farto desta merda toda.
É mau começar um blog com um “post “tão negativo. Mas hoje acordei com um elevado grau de má disposição, que se foi agravando à medida que os ponteiros do relógio caminhavam para a tarde.
Merecemos esta merda toda não por sermos estúpidos, burros ou preguiçosos – embora estes factores não sejam de desprezar -, mas por olhamos em demasia para o nosso umbigo e pensarmos que o mundo se restringe à nossa rua ou à nossa casa.
O nosso narcisismo provinciano é a causa de todas as nossas angústias. Somos muito altruístas até nos pedirem um esforço extra. Somos muito solidários até nos solicitarem ajuda. Somos muito tolerantes até começarem a aparecer muito cidadãos estrangeiros no nosso País.
Só vemos a nossas virtudes. O espelho que nos serve não é crítico. É mais como uma mãe que nos olha com benevolência depois de termos partido o serviço de loiça. Em conclusão, o nosso problema é termos sido muito mimados na infância da democracia. Agora que chegamos à idade adulta e o mundo já não tem aquela aura de nebulosidade com que o víamos na infância, a vida torna-se mais difícil. E claro está! Culpamos os pais (leia-se Governo, Estado, ou então o tão português “eles”) por tudo de mal que nos acontece.