
I - A luta pelo poder
A política sempre condicionou o dia-a-dia de Grote Marine, uma cidade-estado implantada no litoral atlântico, no meio de uma extensa floresta. A vida dos cidadãos, embora pacata, sempre foi fortemente influenciada pelas duas forças políticas que disputavam o governo do pequeno país.
Grote Marine assentava a sua economia em indústrias que dependiam dos humores dos mercados internacionais, facto que criava uma constante oscilação entre a prosperidade e o limiar da miséria.
Desde a sua independência, no início do século X, que os Rosas e os Vermelhos, as duas principais forças políticas, alternavam no poder. Os Rosas foram os primeiros a governar a cidade. Mas, rapidamente, o povo os substituiu pelos Vermelhos. Estes estiveram no poder durante 20 anos. Criaram raízes e ramificaram as suas influências a toda a sociedade. O trabalho foi tão bem feito, que era difícil admitir que o poder pudesse mudar em Grote Marine. Famílias inteiras dependiam da bondade dos Vermelhos. Os desempregados, desde que apoiantes da causa, eram recebidos de braços abertos para desempenharem funções na administração do pequeno país.
Enquanto isso, os Rosas trabalhavam na sombra. Chamavam a si os descontentes, os independentes e os inconformados, que não conseguiam compreender por que razão a sua terra continuava a consumir-se devido ao pensamento pequeno e à visão curta dos seus governantes. O trabalho foi bem feito. Ano após ano, escrutínio após escrutínio os ramos da árvore vermelha iam secando. Ao invés, as raízes rosas cresciam e as ramificações tornavam-se mais fortes.
O dia da mudança acabou por chegar. O milagre não foi operado por quem já estava no terreno. O couteiro-mor dos Rosas, um hábil político de palavra fácil de nome Abilís, que chegou a ser uma figura destacada dos Vermelhos, preparou bem a estratégia. Consciente do descontentamento que reinava e da desordem que se vivia nas hostes adversárias, Abilís, foi descobrir o messias de Grote Marine a uma cidade-estado distante, situada na longínqua Helvecia. O seu nome era Arrogus, um homem culto, de trato difícil, distante, mas amante da sua cidade.
Mais iluminado que o cidadão médio de Grote Marine, devido aos longos anos de contacto com uma sociedade mais desenvolvida social e culturalmente, Arrogus rapidamente convenceu os indecisos, os inconformados e os independentes. Criou-se uma vaga de mudança que varreu as frágeis defesas dos Vermelhos e terminou com a chegada ao poder dos Rosas, 20 anos depois.
A imagem de Grote Marine, conhecida essencialmente pelos constantes conflitos sociais, começava então a mudar. A cidade ganhou novas estruturas que agradaram aos cidadãos. Nos primeiros cinco anos de governo, os Rosas lançaram as sementes que começaram a colher nos últimos anos. Mudaram a face do centro da cidade. Melhoraram a educação e imagem internacional do pequeno país. Construíram novas acessibilidades. A população, agradada com a sua actuação, voltou a confiar nos Rosas e colocou-os no governo de Grote Marine por mais cinco anos. Tal como os Vermelhos, os Rosas cimentaram o seu poder. As raízes tornaram-se mais profundas e os ramos mais longos. Acolheram os membros do clã nos serviços da administração do pequeno país. Fecharam-se em si. O couteiro-mor, que havia tido uma actuação estratégica quase perfeita na primeira vitória, perdeu o discernimento. A governação foi autista e feita de forma arrogante. Mostraram obra, sem dúvida, mas distanciaram-se do povo.
O aviso foi dado. A representação dos Rosas no parlamento diminuiu. Os Laranjas, uma força política com pouca representação na sociedade de Grote Marine, voltaram a ter poder de decisão. Os Vermelhos cresceram e os Rosas desceram na popularidade, embora tenham mantido o poder. Mas Abilís, o couteiro-mor dos Rosas, não conseguiu gerir a insatisfação que reinava no seio do seu clã. E cinco anos e muitos erros depois, os ramos rosas começaram a secar e os Vermelhos voltaram ao poder. Petrosus, o jovem candidato que substituiu Arrogus, foi vencido pelo experiente Bastus, numas eleições muito disputadas.